Dezembro 30, 2007
Setembro 21, 2006
Abril 10, 2006
Abril 03, 2006
Ilha

autor: Ferreira Pinto
título: Ilha
dimensões: 100 x 80 cm
Óleo s/ tela
ano: 1991
Inspiração no livro “Infinito Instante”, de Manuel Cândido
colecção da Assembleia Legislativa Regional dos Açores
Os teus seios sabem a perfume maresia.
Tuas mãos um cesto de flores.
Teu regaço meu desejo de Ilha.
Amei-te ao olhar da Primavera.
Cantei-te ao sonho de Verão.
Chorei-te ao limiar de Outono.
Morremos ambos no pomo do Inverno.
Deste aniquilamento
Restou a nossa fusão –
o meu tormento
à flor do vulcão
De não saber se és tu ou eu…
A ILHA.
Uma Baleia Vê os Homens

autor: Ferreira Pinto
título: Uma Baleia Vê os Homens
dimensões: 130 x 100 cm
Óleo s/ tela
ano: 1993
Inspiração no livro “Mulher de Porto Pim”, de António Tabucchi
Não gostam de água e têm medo dela, e não se percebe porque a frequentam. Também eles andam em bandos mas não levam fêmeas e adivinha-se que elas estão algures, mas são sempre invisíveis.
Às vezes cantam, mas só para si, e o seu canto não é um chamamento, mas uma forma de lamento angustiado. Cansam-se depressa, e quando cai a noite estendem-se sobre as pequenas ilhas que os transportam e talvez adormeçam ou olhem para a lua. Vão-se embora deslizando em silêncio e percebe-se que são tristes.
Onde o Tempo Mora ...

autor: Ferreira Pinto
título: Onde o Tempo Mora e o Homem Demora
dimensões: 70 x 50 cm
Óleo s/ tela
ano: 1992
Inspiração em poemas de Avelina da Silveira e Filipe Sarmento
Saberemos nós se o Mundo acaba aqui? Ou se
a paisagem segue dentro de momentos?
Calai-vos por instantes e deixai ouvir os sussurros desta terra.
Serão lamentos de fogo infinito?
E logo os céus brilham na canalha dos relâmpagos, no vómito exoterico dos vulcões. E o
basalto, erótico, desce a montanha, no corpo da terra, depois de elegantes ejaculações,
como um prazer secreto de soberano monte em sobressalto de paixão.
Abril 02, 2006
Meu Deus, Meu Deus ...

autor: Ferreira Pinto
título: Meu Deus, meu Deus, a certeza, onde a ponho ?!
dimensões: 70 x 50 cm
Óleo s/ tela
ano: 1992
Inspiração em poemas de Avelina da Silveira e Filipe Sarmento
Olha: é único o som, este vento desentranhado
lá dos abismos, elevado pelos canais fulgurantes dos vulcões.
Tudo é primário, como a paisagem primitiva, nascitura. Olha:
as bocas da terra: arrotando labaredas de prazer na contrastante
paisagem calmia, fria, serena como o conforto do fim. Tudo
aqui acaba. Para lá do olhar é o mistério que começa: negro
atractivo que nos puxa, dizendo em sussurros coisas de paixão.
Março 09, 2006
O Mar é Branco

autor: Ferreira Pinto
título: O Mar é Branco
dimensões: 60 x 40 cm
Óleo s/ tela
ano: 1993
Inspiração no livro “O Meu Mundo Não É Deste Reino”, de João de Melo
“O mar? O mar é branco”, pensou com tristeza o curador Cadete, pondo-se a acariciar a sua fantástica bola perpétua, em cuja transparência via habitualmente o mar dos Açores. Solto e arisco na sua espuma de navalhas, cobras enraivecidas, monstros talvez invisíveis e bufões de areia e sal, o mar era branco porque andava picado da saliva desesperada das baleias e das serpentes, da sua contínua mordedura. E a morte soltara-se nele como quando o monstro Centauro se cruzava com os carros dos deuses marinhos. Os cavalos pálidos dos deuses não eram decerto visíveis nos turbilhões da água. Mas agitavam-na quando galopavam na direcção do vento e, voltando o mar de ventre para cima, tornavam-no branco aos olhos do curador Cadete.
João de Melo
“O Meu Mundo Não É Deste Reino”
O Sonho da Reconstrução

autor: Ferreira Pinto
título: O Sonho da Reconstrução
dimensões: 60 x 50
Acrílico s/ tela
ano: 1994
Na imensidão adusta da Tua envolvência há lâmpadas de areia cósmica,
homens pisados pelas trevas e silêncio na boca dos rios imaginários …
Chovem flechas de angústia aguardando a hora da reconstrução …
A Terra gira ininterruptamente em torno de uma órbita de incertezas. Tu fixas o olhar na lonjura das distâncias e toda a terra se incendeia no calor da Tua alma, sedenta de palavras verdadeiras que os séculos vão aurindo e os homens antologiando …
Arrecadas no teu peito uma réstia de esperança, reflectida no verde da Welwitschia que nasce, viçosa, na terra do silêncio …
No limbo das Tuas lembranças, o Teu Eu perde-se na majestade do Teu sonho, sem argúcias e sem silogismos!
Delfina Peixoto
Março 07, 2006
A terra que te ofereço
autor: Ferreira Pinto
título: A terra que te ofereço
dimensões: 80 x 65
Acrílico s/ tela
ano: 1995
Quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,
estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
e materna nudez do horizonte.
Quando,
ansioso,
te vir caminhar
no chão da minha oferta,
coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao sul.
Ruy Duarte de Carvalho
de A terra que te ofereço
“Chão de Oferta” e “A Decisão da Idade”
Março 06, 2006
Mercado Roque Santeiro I

autor: Ferreira Pinto
título: Mercado Roque Santeiro
Acrílico s/ tela
ano: 1995
Queria vê-lo, acreditar na sua existência física e ontológica.Corri as livrarias de Luanda, mas em todas elas me disseram que não conheciam tal livro: não existia ou então ainda não tinha chegado à cidade. Perante a minha obstinação, e insistindo em que sim, que o livro existia mesmo, pois fora já publicado em Portugal, aconselhou-me o mais velho livreiro da cidade a ir procurá-lo no Mercado Roque Santeiro. Talvez lá, quem sabe, entre as muitas indecifráveis coisas da vida que ali se trocam, compram e vendem... Percorri as tendas, perguntei a quem eu julgava competente se já ali tinha chegado “A Geração da Utopia”, do escritor Pepetela. Por fim, disse-me um jovem olheirento e ossudo, apontando ao centro de uma bancada, que o lera ao longo dos últimos três meses, página por página, no único exemplar disponível. Segui o conselho do jovem e segui em frente. Vi que havia uma grande fila de gente. No balcão improvisado da tenda, um outro jovem de olhos terrosos e barbicha renitente aceitava inscrições. Escrevia papelinhos rosados, recebia dinheiro, voltava o troco, designava o nosso lugar na fila de espera. Quando chegou a minha vez, paguei a primeira prestação da minha leitura, oitocentos kuanzas por uma página, sentei-me na banquinha de ébano do vendedor de literatura e li a primeira linha: “Portanto, só os ciclos eram eternos”.
João Melo
África na mente e no coração

autor: Ferreira Pinto
título: África na mente e no coração
dimensões: 50 x 50 cm
Acrílico s/ tela
ano:1994
Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério.
Dormes! e o mundo avança, o tempo vai seguindo …
O progresso caminha ao alto de um hemisfério
E no outro tu dormes o sono teu infinito …
A selva faz de ti sinistro eremitério,
Onde sozinha, à noite, a fera anda rugindo.
A terra e a escuridão têm aqui o seu império
E tu, ao tempo alheia, ó África, dormindo …
Desperta. Já no alto adejam negros corvos
Ansiosos de cair e de beber aos sorvos
Teu sangue ainda quente, em carne de sonâmbula …
Desperta. O teu dormir já foi mais que terreno …
Ouve a voz do Progresso, este outro Nazareno
Que a mão te estende e diz – “África, surge et ambula”.
Rui de Noronha
( Moçambique )
África
África da nossa História e do nosso imaginário.
África que tão “longe” e tão dentro de nós permanece.
É o Homem na sua contingência universal: na sua busca de paz, pão e liberdade.
Ou África se salva ou então morremos todos.
Vamberto Freitas
Consciencialização

autor: Ferreira Pinto
título: Consciencialização
dimensões: 40 x 50 cm
Acrílico s/ tela
ano:1995
Medo no ar!
Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma
A História está a ser contada
de novo
Medo no ar!
Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso África
para mim
com os olhos secos.
Agostinho Neto
Consciencialização
“Sagrada Esperança”
Culturas
Angola!
Terra do sonho e da paixão.
Berço de vastos horizontes incendiados pelo eterno sol poente.
Os teus antigos caminhos passam, no seu lento deambular, por paisagens,
ímpares e coloridas.
São densas florestas, savanas prenhas de vida, rios de águas serenas, cascatas espumantes, desertos luminosos, altas montanhas e praias de
areias alvas que beijam os oceanos.
E as gentes?
Herdeiras da liberdade dos grandes espaços, possuidoras de conhecimentos milenares, são hoje a única garantia que o Homem pode ainda viver em harmonia com a Natureza.
Povos vários cruzam-se no teu seio, cadinho telúrico de culturas
ancestrais, espalhando saberes na brisa morna.
Terra quente e abençoada!
Povo negro e fraterno!
A simbiose és tu.
ANGOLA!
Reinaldo Ribeiro
Longe
Por pátria tenho o mar, como o corsário.
O meu primeiro pranto de inocência
Abafou-mo das águas a cadência,
Em concerto febril, extraordinário.
Poucos anos me tecem a existência,
Ou antes o tristíssimo sudário,
E já comparo a morte à Providência,
E a vida à eterna noite do calvário.
Caetano da Costa Alegre
( S. Tomé e Príncipe )
Quitandeiras I

autor: Ferreira Pinto
título: Quitandeiras I
dimensões: 50 x 50 cm
Acrílico s/ tela
ano:1995
A quitandeira.
Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.
- Laranja, minha senhora
laranjinha boa!
A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.
A quitandeira
que vende fruta
vende-se.
- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!
Agostinho Neto
de Quitandeira
“Sagrada Esperança”
Saudade

autor: Ferreira Pinto
título: Saudade
dimensões: 50 x 50 cm
Acrílico s/ tela
ano:1994
O muito amor por teus olhos quebrados
de sofrer; esta cruel adoração
Por ti, que me trespassa o coração
Nas puas da saudade e dos cuidados;
Estes males da ausência inconsolados
Deram-me a crença da superstição.
E sigo a inserta fé do povo são,
Lendo cartas e sonhos enublados …
Eugeneo Tavares
( Cabo Verde )
Cidade

autor: Ferreira Pinto
título: Cidade
dimensões: 50 x 50 cm
Acrílico s/ tela
ano:1995
Casarios de brancos mistérios distantes
Sombras em vaivém na esquina de cada grito
Ao longe … o fogo! Mais aceso, junto ao coração
Bate o tambor a suavidade do infinito
Treme a miséria, nos escombros de ti, cidade
E, por sob o facho que levantas,
Espreita calada a esperança.
Adelaide Batista
Fevereiro 19, 2006
Noites de Esperança
A minha esperança mora além, no lado de cima, em baixo, à frente e atrás, toda por dentro da grande noite africana. A esperança arde nas minhas costas mas ilumina-me a seguir o caminho em frente. Mais do que uma luz, é um lume onde arde, sem nunca se consumir, a própria lenha do meu corpo. Não a vejo alheia a mim, separada da vida e da minha natureza. Aqui a escuto e respiro. E conheço-a melhor do que ninguém. Sou eu mesmo a minha esperança.
João Melo
Angola no Coração

autor: Ferreira Pinto
título: Angola no Coração
dimensões: 50 x 50 cm
Acrílico s/ tela
ano:1994
Minha Terra, Nossa Terra
Meu eu entre a multidão
Minha Pátria-Escola
Céu e Mar sem fim
Doce capim
Do meu chão Angola
Minha Terra, minha raiz
Diverso de cultura e cor
Chamo a ti País
De ti quero a Nação
De grandeza e elevação
Creio em ti
De Norte a Sul
Creio na gente
De mãos dadas
Creio em nós
Todos filhos da Terra
Creio que agora é de vez
Tem que ser, já desta vez
Hossana, Santana
Minha Terra, meu País
A guerra ficou para trás
Que haja gente para um tempo novo
Cantar canções de Paz
Minha Terra
Nossa Terra
Liberdade é união
Justiça, trabalho e Paz
E, Angola no Coração…
Filipe Zau
























